Quando procurei fugir da antiintelectualidade dos círculos
evangélicos, encontrei vigor intelectual e vida inteligente entre os
calvinistas. Quando procurei fugir do legalismo, da meritocracia e
barganha religiosa me refugiei na graça pregada pelos
calvinistas.
Por isso, apesar de rejeitar o clericalismo e determinismo
mecanicista, ainda guardo profundo respeito pela tradição ligada ao
reformador suíço João Calvino. Evidencio esse respeito no
acolhimento do princípio de vivenciar hoje uma espiritualidade em
constante reforma e no esforço para construir formulações de fé
apropriadas ao nosso tempo, como fez o jovem Calvino quando reformou
uma fé ainda muito presa no medievo contextualizando-a com a
emergente modernidade.
A
síntese dos cânones teológicos definidos no Sínodo de Dordrecht,
conhecida como os "Os cinco pontos do calvinismo" fala sobre: Depravação
total do homem; Eleição incondicional; Expiação limitada; Graça
Irresistível; e Perseverança dos santos. Tomei a liberdade de
reinterpretar esses pontos, me atrevendo a chamá-los de "Os
cinco pontos do meu calvinismo":
1) Salvação divina
Rejeito sistemas religiosos orientados para a escolha e promoção dos mais
dotados. Considero a meritocracia religiosa profundamente
perniciosa e arrogante. As boas-obras praticadas por qualquer
confissão, embora muitas vezes válidas e até recomendáveis, devem ser
relativizadas e criticadas e são totalmente insuficientes para a
salvação. Acredito na incapacidade humana de se
auto-salvar. A salvação pertence a Deus.
2) Eleição incondicional
O Deus triúno que desde toda a eternidade existia em comunhão
dinâmica consigo mesmo decidiu manifestar seu amor e graça
salvadora predestinando a humanidade para salvação. A salvação é
um presente dado resultado de decisão soberana, incondicional,
irrevogável, insondável, sem levar em
conta o mérito e sem fazer acepção de pessoas, para o benefício de todos. O salvo é o reconciliado com o Criador (sua criação, demais criaturas) e consigo mesmo.
3) Reconciliação ilimitada
A obra redentora de Cristo realizada antes da fundação do mundo foi de valor
ilimitado e totalmente bem sucedida para anular qualquer implicação
condenatória da queda histórica da humanidade, bem como de quedas
de uma vida distanciada da graça. O eterno plano divino de salvação
foi dramatizado no tempo e espaço pela encarnação, vida, morte e
ressureição do Cristo. Ele é a ponte reconciliadora entre Deus e
os homens de todos as épocas, lugares, culturas e religiões.
4) Graça inspiradora
A graça aceita ser menosprezada, esquecida e insultada. Não tenta
agradar a si mesma e não tem prazer em controlar ou impor sua
vontade. Ela é irmã da liberdade. Sua influência é suave, bela,
bondosa e inspiradora. Ela cativa nosso coração para se encantar com o mistério, amar e
enxergar a beleza da vida. Ela nos leva a celebrar as sensações e
as relações. Nos traz esperança em meio ao desespero e nos
mobiliza a agir de forma altruísta.
5) Esperança inesgotável
Nada e ninguém pode nos separar do amor de Deus. Essa esperança
é terapêutica e mobilizadora, na medida que exorciza nosso mau agouro e pessimismo e encoraja nossa valentia e
intrepidez em um mundo que segue um curso histórico contingente e cheio de contradições. É
motor de uma fé perseverante que tinge com as cores da aurora de um
novo dia esperado tudo o que existe.
Longe de querer colocar Deus numa caixinha, promover determinada vertente teológica ou mesmo criar uma nova, esses pontos são apenas reflexões pessoais que fui sistematizando ao longo do tempo. Todos eles são zurros! Repeti, modifiquei, desvendei, transpus coisas que acreditei com base nas minhas próprias vivências, e esse é um processo sempre incerto e inacabado.
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terça-feira, 24 de julho de 2012
quarta-feira, 23 de março de 2011
Só entre nós
Pampelum é uma cidade (na verdade uma cidade-estado, um pequeno país no interior de um grande continente, mas não se incomode quando eu chamar de cidade) muito especial, com muitas peculiaridades. Quando passeamos por Pampelum uma das coisas que costumam chamar atenção é a ausência de imagens e templos religiosos. É isso mesmo, não adianta procurar uma grande catedral na praça central que você não encontrará. Muitos visitantes deixam a cidade com a impressão de que os pampelúmicos não são religiosos. Mas quero contar um segredinho para você.
Na verdade, os pampelúmicos possuem uma vibrante espiritualidade que é imperceptível por muitos que estão acostumados com as expressões convencionais. É comum entre os pampelúmicos haver uma grande apatia diante de discussões religiosas e grande cuidado com a ostentação de ícones que podem dividir ou ferir a consciência do outro, principalmente em espaços públicos. Isso porque Pampelum historicamente vem recebendo muitos refugiados de cruéis guerras religiosas que dividiram famílias, oprimiram minorias e mataram milhões de pessoas. São corações feridos que encontraram remédio nessa cidade. Por isso é comum ouvir o jargão: “Religião não se discute”. Mas isso não quer dizer que ela não seja importante, não seja vivida, entende?
Religião fundada no exclusivismo e medo realmente não tem lugar ali, mas existe algo realmente mais profundo, inclusivo e encantador que vale a pena ser desvendado. Em Pampelum Deus brinca de esconde-esconde. Respondendo a um questionamento sobre sua religião, Einstein disse o seguinte: “Tente penetrar, com nossos limitados meios, nos segredos da natureza, e descobrirá que por trás de todas as leis e conexões discerníveis, permanece algo sutil, intangível e inexplicável. A veneração por essa força além de qualquer coisa que podemos compreender é a minha religião. Nesse sentido eu sou, de fato, religioso”. Será que ele experimentou uma espiritualidade semelhante a dos pampelúmicos? Intuo que sim.
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